Turismo

Buenos Aires Eterna

O mundo globalizado, onde os estados nacionais tendem a desvanecer-se e o ritmo da urbanização avança incessantemente, é cada vez mais um mundo configurado em grandes cidades. Muitas dessas grandes cidades são os “carros-chefes” de seus respectivos países. É quase impossível pensar nos Estados Unidos, sem lembrar de Nova York; na França, sem lembrar de Paris; na Grã Bretanha, sem lembrar de Londres; na Itália, sem lembrar de Roma; no Japão, sem a imagem de Tóquio; em Cuba, sem imaginar La Havana. Por isso, no cenário internacional, Buenos Aires é sinônimo de Argentina. Até o ponto em que, na visualização internacional, a imagem do argentino típico é, por antonomásia, a do portenho.


A esta primeira reflexão, teríamos que acrescentar uma segunda: nesta sociedade globalizada, o denominado “hardpower”, ou o “poder forte”, cujo fundamento último é de caráter militar, começa a ser crescentemente desafiado pelo chamado “softpower”, ou o “poder brando”, que tem uma natureza basicamente cultural. Esse “softpower” constitui numa aptidão muito especial, poderia dizer-se um dom. Consiste em uma força capaz de atrair, de despertar admiração e suscitar desejos de imitação. Essa força tão particular é o que define, acima de tudo e principalmente, a cidade de Buenos Aires.


Mais do que costumes e paisagens, Buenos Aires apresenta um extraordinário atrativo cultural, um estilo de vida próprio, que a diferencia com uma identidade única e intransferível. É algo que desperta o orgulho de seus habitantes e a admiração de seus compatriotas e que exerce também uma atração irresistível sobre os milhões de turistas sul-americanos e do mundo inteiro que, ano após ano, a visitam e prometem voltar a fazê-lo.


Muito distante da imagem estereotipada de uma cidade hispânica de arquitetura colonial, Buenos Aires chama a atenção como uma grande cidade européia encravada no coração da América do Sul. Como Nova York, sobressai por seu estilo cosmopolita, que pode ser nitidamente observado em algumas de suas avenidas e bairros tradicionais. Para o turista europeu, é quase impossível percorrer a clássica Avenida Alvear, sem fazer analogia com Paris; caminhar pela tradicional Avenida de Mayo, sem sentir saudade de Madri; ou visitar o popular bairro da Boca, assentamento da primeira onda de imigração italiana, sem lembrar de Nápoles.

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Mas, esse cosmopolitismo diferente de Buenos Aires, comparável ao de Manhatan, que se observa em sua aparência urbana, surpreende quando se conhece o seu povo. Porque sobre a base populacional hispânica originária, sobrepôs-se, a partir da segunda metade do século XIX, uma gigantesca onda imigratória de origem italiana. Tanto é assim, que o voto dos italianos residentes em Buenos Aires e de seus descendentes que obtiveram a cidadania italiana, foram um fator absolutamente decisivo para o triunfo de Romano Prodi nas recentes e disputadíssimas eleições italianas. De fato, no novo Parlamento italiano há agora um senador e vários deputados que moram em Buenos Aires. Já no ano passado, o voto da comunidade galega de Buenos Aires havia tido um papel de destaque na derrota eleitoral que tirou do poder o legendário Manuel Fraga Iribarne.


No entanto, essa torrente imigratória de origem italiana não formou uma comunidade separada, como ocorreu em muitos outros países. Muito pelo contrário, integrou-se rapidamente à sociedade argentina e soube impor uma marca muito especial à idiossincrasia portenha. Desde a gesticulação ao falar até numerosas frases idiomáticas, sem contar os costumes gastronômicos, como o gosto pelas massas e pela pizza, os ancestrais italianos estão muito presentes em Buenos Aires, muito mais do que no resto da Argentina. De fato, os portenhos que viajam pela Europa são muito mais confundidos com italianos do que com espanhóis.


Em matéria de integração, pode-se dizer o mesmo sobre as aproximadamente 300 comunidades estrangeiras claramente identificadas em Buenos Aires, uma cifra que não admite comparações com nenhuma outra cidade do planeta. Buenos Aires abriga, por exemplo, a terceira comunidade judia do mundo, a mais numerosa depois de Tel Aviv e de Nova York. Mas também está em Buenos Aires uma importantíssima comunidade árabe, profundamente enraizada, na qual não fermentou, de forma alguma, nenhum dos gravíssimos problemas suscitados na “banlieu” parisiense.


Estas duas comunidades mantêm entre si uma relação de profundo respeito, quando não de extrema cordialidade. Ambas habitam zonas nos arredores da cidade. Na interseção da Avenida Corrientes com a Rua Junín, pode-se ver algo que certamente é único no mundo: um simples restaurante com um cartaz que diz “comida árabe e judia”. O sonho da paz e da convivência pacífica no Oriente Médio é uma antiga realidade histórica em Buenos Aires.


Buenos Aires é também a segunda cidade uruguaia, depois de Montevidéu, e a segunda cidade paraguaia, depois de Assunção. Assim como a comunidade italiana foi decisiva para o triunfo eleitoral de Prodi, os uruguaios residentes em Buenos Aires foram os que fizeram com que Tabaré Vázquez pudesse superar 50% dos votos, com um resultado apertado, e assim ganhar as eleições presidenciais no primeiro turno.


É muito provável que este singular sincretismo étnico e cultural seja uma das principais marcas distintivas da identidade cultural portenha. Mas essa identidade não é resultado da imitação. Buenos Aires compartilha com Nova Orleans o extraordinário privilégio de haver sido o berço de uma das duas músicas folclóricas urbanas que adquiriram dimensão mundial. Mas, o tango já é muito mais do que a música de Buenos Aires. O romancista russo Tolstoi dizia: “se você quiser ser universal, pinte sua aldeia”. E como o tango retrata com uma notável fidelidade o espírito de Buenos Aires, transformou-se em uma música de caráter universal.
Mas, a vitalidade cultural de Buenos Aires excede qualquer singularidade. Simplesmente para exemplificar, bastam três dados para dimensionar sua importância. O primeiro é a Feira do Livro, um acontecimento provavelmente único no mundo, que congrega todos os anos mais de um milhão de visitantes. Não se trata somente de um evento social, um passeio de circunstância. A quantidade e variedade de livrarias espalhadas pela cidade de Buenos Aires costuma provocar assombro em muitos de seus visitantes.
O segundo desses dados, digno de menção, é o auge do teatro: Buenos Aires é, sem dúvida, uma das cinco grandes capitais da atividade teatral no mundo. Há mais de setenta anos, o surgimento de um vasto movimento cultural independente possibilitou uma forte expansão do teatro vocacional, que em Nova York se define como “off Broadway”.


O terceiro dado é ainda mais sugestivo: tratando-se de capitais mundiais, Buenos Aires é também uma das três grandes capitais mundiais da psicanálise, ficando atrás somente de Nova York e Paris. A consulta e tratamento psicológico são recursos muito empregados em Buenos Aires, em todas as escalas sociais, inclusive nas mais humildes, incluindo, por exemplo, o setor das empregadas domésticas. Precisamente pela alta concentração que possui de psicanalistas, uma zona do bairro de Palermo é chamada de “Vila Freud”.

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Esta poderosa identidade cultural não é obviamente uma novidade. Tem uma longa história, quase sempre mesclada às enormes vicissitudes políticas argentinas, porém, em algumas ocasiões, até quase independente dessas bruscas alterações. Um extraordinário romancista e intelectual francês, André Malraux, definiu Buenos Aires como “a capital de um império imaginário”. Coincidentemente, um grande embaixador brasileiro na Argentina, Marcos Azambuja, disse: “O Brasil muitas vezes duvidou da Argentina, mas jamais duvidou de Buenos Aires”.


Inclusive, Buenos Aires foi mais de uma vez uma identidade politicamente independente, uma “cidade - Estado”. Assim aconteceu na prática em 25 de maio de 1810, quando deu o Grito da Independência. Também entre 1820 e 1824, quando a Argentina estava destroçada pela anarquia. O mesmo ocorreu entre 1829 e 1852, durante os governos de Juan Manuel de Rosas, e entre 1854 e 1860, quando adiou sua incorporação definitiva à Confederação Argentina, concretizada oficialmente em 1861.


De fato, o nível de vida e de consumo da cidade de Buenos Aires é notoriamente superior à média nacional. Com seus três milhões de habitantes, apenas 9% da população total da Argentina, uma cifra que, felizmente para a paisagem urbana, permaneceu invariável durante os últimos trinta anos. A cidade produz aproximadamente 25% do produto interno bruto. A renda por habitante quase triplica em relação à média nacional.

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Por tudo isso, Buenos Aires não é somente um itinerário interessante a percorrer. É, acima de tudo, o seu povo. Conhecer Buenos Aires não é, portanto, simplesmente munir-se de um mapa e começar a caminhar sistematicamente por um roteiro turístico pré-estabelecido. Implica em decifrar os seus códigos ocultos. Obviamente, não basta fazer o “city tour”, que começa com o famoso, embora indispensável, passeio pela Praça de Maio e seus arredores, caracterizados pela Casa do Governo, a Catedral e o Cabido. A magia de Buenos Aires, que não se descobre somente em seu denominado micro-centro, situado entre as avenidas Libertador e Belgrano e entre Leandro Alem e a Avenida 9 de Júlio, nem tampouco em seu macro-centro, que estende esse perímetro até a Avenida Pueyredón. Não se limita a seus bairros mais elegantes, como a clássica Recoleta ou o exuberante Puerto Madero (em acelerada expansão), duas zonas onde se pode encontrar, em pouquíssimas quadras, uma concentração de restaurantes de elevado padrão internacional, difícil de ver em outras grandes cidades. Tampouco se reduz a um igualmente recomendável tour de compras pelos shoppings centers mais elegantes, como a Galeria Pacífico, Pátio Bullrich ou Paseo Alcorta, onde os visitantes estrangeiros podem adquirir produtos de primeira qualidade mundial e beneficiar-se de preços internacionalmente muito convenientes.


Porque Buenos Aires é muito mais do que uma cidade “for export” muito bem equipada. Sua formidável diversidade e riqueza se expressam também na variedade existente em seus múltiplos bairros. Oficialmente, os bairros portenhos são 49. Cada um deles apresenta um aspecto particular. Seja em suas zonas mais tradicionais, como San Telmo, Boca ou Barracas, ou nas que sofrem mudanças cada vez mais aceleradas, como Bairro Norte ou Belgrano, não existe a uniformidade.


De forma semelhante a Madri ou a Paris, porém mais ainda do que nessas duas grandes cidades européias, os bares são uma instituição especial em Buenos Aires. “Cafetín de Buenos Aires” é o título de um tango de Enrique Santos Discépolo que resume toda uma mitologia portenha. Entre um café e outro, o bar é para o portenho o lugar de encontro por excelência. Ali se fala e se discute principalmente o divino e o humano. No entanto, há, ao menos entre o público masculino, dois temas favoritos, que apaixonam até o paroxismo: o futebol e a política. O escritor mexicano Octavio Paz afirmou: “sempre pensei que o espetáculo mais apaixonante que eu havia presenciado em minha vida tinha sido a tourada, até ver dois argentinos discutindo sobre política”.


Tem o melhor transporte público das cidades da América Latina. Mas o serviço de táxi é um dos melhores do mundo. Com outra particularidade: o taxista portenho é uma personagem especial do folclore urbano. Pergunta, fala e opina sobre tudo. Não existe nenhum assunto que não conheça. É comum encontrar entre eles profissionais universitários ou antigos proprietários de pequenas empresas. Constituem um fator significativo da opinião pública local. Tomar um táxi é a promessa de um diálogo interessante.


A recuperação econômica da Argentina é intensamente sentida em Buenos Aires. Há uma verdadeira explosão turística, que dinamiza fortemente o consumo e a indústria do entretenimento. A propriedade imobiliária experimentou uma forte revalorização nos últimos anos. A cidade tornou-se uma atrativa fonte para o investimento imobiliário internacional.


A cultura portenha não é um reduto separado do conjunto da sociedade. Não se limita ao seleto público do Teatro Colón, nem ao grande público de lugares como o Centro Cultural Recoleta ou o Centro Cultural General San Martín, na clássica Avenida Corrientes. A população de Buenos Aires é notavelmente culta. Tem uma taxa de alfabetização de 99%, uma cifra única na América Latina e com poucos paralelos em escala mundial. Também é extraordinariamente elevada a porcentagem da população portenha com estudos universitários ou superiores. Além da tradicional Universidade de Buenos Aires, que sempre constituiu o destino dourado de milhares e milhares de estudantes sul-americanos, há dezenas de universidades particulares, entre elas várias de altíssimo padrão. Mas, além disso, os portenhos querem estudar e capacitar-se: fora do âmbito da educação formal, centenas de instituições oferecem um variado cardápio de opções que encontram um mercado ávido por aproveitá-las.


Uma demonstração de tudo isso é a importância adquirida pela utilização generalizada das novas tecnologias da informação. Há mais fibra ótica instalada na cidade de Buenos Aires do que em Manhatan. 46% dos lares portenhos estão conectados à Internet. É uma porcentagem própria do mundo altamente desenvolvido. Nas ruas de Buenos Aires, inclusive nos bairros menos abastados, existem centenas de locais, de diversos tipos, que oferecem o serviço de conexão à Internet. Estes dados, unidos à explosão registrada na telefonia celular, revelam que a interatividade faz parte da vida cotidiana da maioria dos portenhos em geral e da imensa maioria dos jovens.


Esta profunda imersão da população portenha na sociedade da informação tem uma enorme importância estratégica. Os especialistas na denominada “nova economia” acunharam o conceito de “cidades mundiais”. Tratam-se de alguns grandes centros urbanos que, por suas características tecnológicas e culturais, constituem núcleos particularmente ativos dentro da intrincada rede que sustenta e vincula a economia globalizada. Pelas avançadas características culturais de sua população e pelo lugar que ocupam as novas tecnologias da informação em seu sistema produtivo e em sua vida cotidiana, Buenos Aires reúne as condições básicas de uma “cidade mundial”. Desta forma, constitui também uma ferramenta estratégica para a Argentina como Nação, que lhe permite inserir-se ativamente nos fluxos da economia global. 

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