Jogo, Um grande negócio na América Latina
Gildo Mazza
Recente estudo de especialistas de jogo e de pesquisas qualitativas aponta: cada habitante da América Latina destina uma média de US$ 250 anuais para o jogo, movimentando uma cifra astronômica: US$ 100 bilhões. Em todo o mundo, o jogo movimenta entre US$ 400 e 500 bilhões por ano, de acordo com o Instituto Sipri, de Estocolmo. Nos Estados Unidos, US$ 50 bilhões são gastos anualmente na atividade.
Os países da região onde mais se aposta, de acordo com a pesquisa, são a Venezuela, Peru, Argentina, Colômbia, Panamá, Brasil e Uruguai. Nesses países, as máquinas caça-níqueis, cassinos, hipódromos, loterias e bingos fascinam milhões de pessoas.
Pelo volume que representa, o jogo na América Latina é uma das indústrias mais prósperas do continente, garantindo milhões de empregos, impostos, lazer e negócios em outras atividades afins, como o setor hoteleiro, de serviços, turismo etc.

Miguel Mikasinovic
No Brasil, por exemplo, apenas as loterias oficiais da Caixa Econômica Federal movimentaram em 2003 mais de US$ 1,15 bilhão, um valor recorde na história do órgão e 18% superior ao ano anterior. Desse total, 48% (US$ 552 milhões) foi repassado a programas do governo federal para as áreas de educação, segurança, saúde e seguridade social.
Mais do que apontar apenas o montante que o jogo representa, o estudo destaca um lado negativo da questão: o jogo clandestino estimula o funcionamento de máfias e a lavagem de dinheiro. Aliás, esse ponto vai exatamente de encontro à legalização do jogo defendida pela revista Games Magazine.
Especialmente no Brasil, onde os cassinos não são permitidos, mais uma constatação do estudo: os jogadores buscam alternativas que atendam ao seu objetivo, como apostas pela internet, jogo do bicho, cassinos clandestinos e, para os mais abonados, viagens para países próximos onde os cassinos são legais.

Luis Miguel cabeza de Vaca
Um dado interessante é a Argentina, onde se estima que mais de três milhões de pessoas joguem quiniela clandestina (uma aposta idêntica ao jogo do bicho brasileiro e a Chance, colombiana). Segundo o jornal Clarín, a venda ilegal da quiniela é feita por cerca de 120 mil “pasadores”, atrelados a 1.100 banqueiros do jogo, com um volume de apostas que chega a US$ 520 mil por dia (US$ 173 milhões por ano). Em Buenos Aires existem cerca de duas mil agências que funcionam na informalidade, contra apenas 1.200 legais. Como discute-se uma nova legislação para o setor, os próprios “quinieleros” clandestinos fizeram uma oferta que demonstra uma força surpreendente: os 120 mil vendedores da quiniela ilegal estão dispostos a pagar entre US$ 85 e US$ 100 milhões por ano para que não sejam considerados contraventores. Daniel Amoroso, presidente do Sindicato dos Trabalhadores de Jogos, com 15 mil sócios, é contra. “Se isso acontecer, no dia seguinte surgem outros 20 mil novos. Na verdade, a solução é endurecer as penas e aplicar a tolerância zero ao jogo clandestino”.
O estudo sobre o jogo na América Latina aponta que na Argentina, onde nem todas as cidades permitem os jogos, as pessoas gastam cerca de US$ 700 milhões por ano em loterias, corridas de cavalo e nos cassinos. Apenas o Casino Buenos Aires, barco ancorado em pleno Puerto Madero, recebeu em seus caixas mais de US$ 380 milhões em 2002.
Outro dado que merece destaque acontece no Uruguai, com apenas 3 milhões de habitantes. As apostas anuais estão na casa de US$ 550 milhões. Esse número gigantesco tem uma explicação: boa parte da receita vem de turistas (a maioria argentinos e brasileiros).
No Chile, um dos países mais moderados, são apostados cerca de US$ 200 milhões por ano. Esse número deve crescer bastante dentro de curto espaço de tempo, uma vez que o mercado está em expansão e o número de cassinos deve saltar dos atuais sete para 15 no máximo em dois anos.
Na Venezuela, ao contrário, são apostados legalmente mais de US$ 1,1 bilhão em jogos de azar. Apenas em corridas de cavalos, transmitidas há 20 anos pelo canal Venezolana de Televisión, são jogados cerca de US$ 125 milhões por ano.
O único problema no país é o jogo ilegal, que movimenta apenas em cassinos e bingos, um total de mais de US$ 2,2 bilhões por ano, de acordo com o superintendente da Seniat – Servicio Nacional Integrado de Administracion Aduanera y Tributaria, José Vielma Mora. Segundo ele, essas somas não são tributadas e o país está buscando uma nova legislação para trazer à legalidade o jogo clandestino. “O que se espera do setor é que atue dentro da lei como forma de levar os benefícios da atividade para toda a sociedade venezuelana. Queremos que o setor cumpra seus deveres para que tenhamos mais recursos a serem destinados à saúde, justiça e educação na Venezuela”.
Em junho, durante a realização de um painel sobre o jogo na América Latina na 6ª Conferencia Anual sobre Juegos y Hospitalidad en el Caribe, que aconteceu em Porto Rico, foi debatido o crescimento do setor de cassinos no continente, com enfoque para o fato de a atividade ser um serviço complementar à indústria de turismo.
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